Após acordo com GP, Laep planeja fazer aquisições
Alda do Amaral Rocha, de São Paulo
A Laep Investments pretende voltar às compras. Concluída a operação no setor de lácteos com a Monticiano, controlada pela GP Dairy, o fundo presidido pelo empresário Marcus Elias, prepara-se para fazer aquisições. Em entrevista exclusiva, Elias declara estar "olhando oportunidades" em setores como usinas de açúcar e álcool e infraestrutura no país. A Laep também avalia a compra de um ativo de alimentos na Espanha. "Nosso foco é comprar empresas com problemas para serem resolvidos", afirma Elias.
A nova investida da Laep, que em 2006 comprou a Parmalat - em recuperação judicial -, acontece depois de um período crítico, quando teve de se desfazer de ativos e que culminou na operação com a Monticiano.
No acordo com a companhia dona da marca Leitbom, a Laep aportou fábricas e marcas das empresas Glória e Ibituruna e recebeu ações ordinárias da Monticiano, equivalentes a 40% do capital votante e a 26,67% do capital total, além de ações preferenciais, correspondentes a 100% do capital não votante e a 33,33% do total.
A Laep também transferiu para a Monticiano o licenciamento da marca Parmalat até 2017. Ativos que já pertenciam à Parmalat antes da recuperação judicial não entraram no negócio. São duas unidades, uma em Santa Helena de Goiás (GO) e outra em Ouro Preto d'Oeste (RO), ambas arrendadas para a Italac.
Elias, que não tem cargo executivo na Monticiano (uma S.A, sem papel em bolsa), afirma estar pronto para novos investimentos após a "penúria" de 2009, quando a Laep ficou sem capital de giro por conta da crise e da necessidade de pagar dívidas com fornecedores.
Para fazer novas aquisições, o plano é utilizar recursos obtidos em operações de capitalização, segundo ele. Ontem, por exemplo, a empresa concluiu uma operação, anunciada em janeiro, com o GEM Group (Global Emerging Markets). O fundo fez um aumento de capital na companhia de R$ 190 milhões.
Falando como acionista da Monticiano, Elias avalia que a empresa - a quinta maior em captação de leite do país - tem hoje uma capacidade de produção e portfólio de marcas suficientes para avançar no mercado. Ele diz que o faturamento da Monticiano deve ficar na casa dos R$ 2 bilhões a 2,5 bilhões nos próximos dois anos, não muito diferente dos R$ 2,2 bilhões alcançados pela Laep em 2008, antes do agravamento da crise. "A companhia tem de brigar para colocar produtos com margem [no mercado] e não brigar por faturamento", defende.
Um segmento de maior valor agregado no qual a Monticiano investirá é o de iogurtes, e a expectativa é de lançar o produto com a marca Parmalat, segundo Elias. Hoje, a BRF (resultado da união entre Perdigão e Sadia) tem a licença do uso da marca para iogurtes, que é renovada anualmente.
O empresário não esconde o alívio por ter solucionado a operação de leite após o negócio com a Monticiano. "Estou contente porque conseguimos sobreviver sem dar calote e conseguimos fazer a fusão com a GP aportando ativos que não têm ônus nem herança da recuperação judicial [da Parmalat]".
Ele também reconhece que houve erros de avaliação e de estratégia que levaram a Laep a enfrentar problemas desde que abriu o capital em outubro de 2007. "Se pudesse voltar atrás, seria mais cauteloso com a possibilidade de o mundo mudar drasticamente de 2007 para 2008", afirma, referindo-se ao período de oferta farta de recursos no mercado de capitais e que foi seguido por uma crise.
O que Elias também não esperava era que outros players, como a gaúcha Bom Gosto, avançariam tão rapidamente no segmento de leite.
A Laep buscou crescer depois de abrir o capital na bolsa e obter R$ 540 milhões, bem abaixo dos R$ 1 bilhão esperados [ver texto nesta página]. Além de adquirir, em abril de 2008, os ativos da Poços de Caldas, a Laep comprou três laticínios - Sonata, Ibituruna e Montelac - , quatro fazendas de pecuária leiteira e uma empresa especializada em fertilização in vitro e em transferência de embriões.
Já sentindo os efeitos da crise, teve de vender a Poços de Caldas para a própria Monticiano, cinco meses depois de adquiri-la. Também acabou se desfazendo da então maior fábrica da Parmalat - a de Carazinho (RS) -, que foi inicialmente arrendada e depois vendida à Nestlé para que pudesse quitar dívidas com fornecedores e driblar a falta de crédito no mercado.
"Em 2007, havia fartura no mercado de capitais e saímos para uma expansão acelerada", diz Elias. Ao mesmo tempo, a empresa carregava o "ônus" da recuperação judicial da Parmalat, acrescenta. Ele afirma que "no meio do esforço" para solucionar as questões da recuperação judicial veio a crise financeira de 2008, queda das cotações internacionais de lácteos e guerra de preços no mercado interno. Naquele momento, a Laep estava alavancada e tinha uma dívida de R$ 600 milhões. Para pagá-la, desfez-se de ativos e converteu parte dos débitos em ações da Laep.
Acostumado a comprar e a vender empresas, Marcus Elias não descarta alienar a participação na própria Monticiano algum dia. Questionado sobre o tema, diz: "No dia e no momento em que tiver oportunidade favorável de alienação de qualquer ativo, vou vender", afirma, sem citar o nome da Monticiano.
Fonte:
Valor Econômico
Publicada em sexta-feira, 16 de julho de 2010
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